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A ficha caiu...não era CLIL.



Minha primeira formação em CLIL foi em 2013 (se não me falha a memória) com Rita Ladeia em um evento em SP. Naquela altura, era professora de música em uma escola bilíngue conceituada e todas minhas aulas eram ministradas em inglês.

Logo que a palestra começou, fui enchendo os ouvidos e orgulhosamente anotando tudo, já que eu era uma professora CLIL. Eu, em toda minha certeza egocêntrica, acreditava que, sendo minhas aulas de música dadas em inglês, eu estava integrando língua e conteúdo. Lá pelos 20 minutos de palestra, comecei a notar que algo estava estranho. Depois de passar pelos 4 Cs da abordagem e ter consciência que cultura, cognição, comunicação e conteúdo estavam em meus planejamentos, percebi que o processo de avaliação e os conteúdos linguísticos não batiam. Eu nunca tinha considerado, até ali, que aspectos linguísticos deveriam fazer parte da avaliação dos meus alunos e os meus objetivos linguísticos eram inexistentes. Naquele contexto, a única consideração mais profunda relacionada à língua em si eram os termos que precisava que meus alunos soubessem em inglês, ou seja, o vocabulário.

Foi então que minha ficha caiu: eu não usava a abordagem CLIL nas minhas aulas. Meus objetivos não estavam relacionados ao ensino da língua em si. Não havia nenhum momento de instrução explícita da língua-alvo. Eu era "apenas" uma professora de música que dava aulas em inglês, mas não usava uma abordagem CLIL. Ao longo do tempo, fui percebendo o quanto isto faz parte do imaginário e do discurso de outros profissionais envolvidos em contextos de educação bilíngue.

Esta falsa noção de ser professor CLIL está presente no discurso de quem está usando a outra língua somente como meio de instrução, mas com foco somente no conteúdo, e também no discurso de quem usa textos e vídeos relacionados a outras disciplinas quando na verdade tem como objetivo somente o ensino da língua-alvo.

A motivação para a escrita deste artigo está em justamente tentar diminuir esses gaps e mostrar algumas novas possibilidades de entendimento. Mas, afinal, o que é CLIL? CLIL, EMILE, AICLE, são os acrônimos relacionados ao ensino-aprendizagem integrado de língua e conteúdo. Em francês e espanhol, o termo recebe a especificidade da língua como estrangeira.

Não vamos aqui, fazer todo o histórico de como esta abordagem - ou técnicas como David Marsh se refere - se tornaram referência ou como são as práticas em outros países, mas cabe dizer que, a união das pesquisas dos contextos europeus e canadense foram de grande valia para que esta abordagem fosse espalhada ao redor do mundo para ser como é hoje, discutida em vários contextos escolares diferentes.

E, apesar das primeiras publicações sobre o tema serem datadas do final do século passado, há ainda muita insegurança dos professores e gestores em relação ao que é efetivamente CLIL, inclusive em países europeus. Isto se dá, na minha opinião, pelo fato de que o CLIL é um termo guarda-chuva que abarca diversas possibilidades.

Em um webinar proferido pelo David Marsh em 2014, ele relaciona que CLIL muitas vezes é confundido com: Immersion, Bilingual Education, Two-way Immersion, Dual language, Foreign Language, Heritage Language, Sheltered Instruction, Cognitive Language Learning, Cross-curricular Teaching, Content-Based Teaching, Task-Based, English as a Medium of Instruction, English for Specific Purposes, Content-Based Instruction, ufa! Isto porque, todas estas modalidades ou abordagens, são relacionados ao ensino de línguas e alguns perpassam por diferentes conteúdos, mas Marsh aponta que nenhum deles é realmente eficiente nesta integração.

Mas como então, fazer esta integração?

O professor precisa partir do princípio que seus alunos, que são aprendizes do século XXI, têm características de aprendizagem diferentes daquelas dos tempos anteriores. Cada vez mais, estão inclinadas a uma aprendizagem não-linear (Learning while doing and doing while learning = Aprender enquanto faz e fazer enquanto aprende). Isto facilita o trabalho do professor pois ele muda seu pensamento para uma maior autonomia do aluno, pois o mesmo deve se organizar e ter consciência do que necessita para melhor usar a linguagem e comunicar.

Professor, sugiro que pense primeiro na linguagem que seus alunos já têm. Analise, então, dentro do conteúdo que espera que eles aprendam, que estruturas linguísticas e que vocabulário eles necessitam para não só compreender, mas também comunicar estes conhecimentos. Varie as modalidades de materiais que vai usar, não ficando amarrado a textos e vídeos, mas pense em outros formatos de documentos, como podcasts, vlogs, mindmaps, infográficos, e outros registros.

Pense que um dos pontos focais no trabalho com CLIL é scaffolding. Este é um termo complicado de traduzir mas muito recorrente quando em contexto educacional. Ele se refere ao suporte que o professor deve dar aos aprendizes para que consigam “dar conta” das aprendizagens necessárias. Um exemplo, seria um professor de história ter um momento de instrução explícita do uso do passado em inglês, ou seja, como é a estrutura gramatical do passado, pois se seus alunos não dominam este tópico, não entendem como falar, ouvir, compreender frases no passado, como eles poderão minimamente entender como aconteceu uma revolução, ou como um dado regime governamental foi substituído por outro?

Isso caracteriza uma integração língua e conteúdo. Pois a língua é necessária para entender, comunicar e na mediação e estruturação do conhecimento. Portanto, professor especialista que dá suas aulas em outra língua que não a língua materna de seus alunos, pense no quanto de linguagem esses alunos dominam. Qual estrutura e vocabulário seus alunos precisam para compreender e comunicar seus conhecimentos daquele conteúdo que está ministrando. Make language available for your students = Disponibilize linguagem a seus alunos. Ao fazer isto, você consegue tornar seus alunos mais confiantes, mais motivados e mais habilitados a produzir, compartilhar e consolidar aprendizagens.

Assim, professor, seu aluno vai ter oportunidade de contato com BICS e CALP, vai poder participar melhor em atividades que vão além do uso de LOTS (Lower Order Thinking Skills) mas chegam a HOTS (Higher Order Thinking Skills) e com certeza, saberão que em suas aulas a língua será DE aprendizagem, PARA aprendizagem e ATRAVÉS da aprendizagem.

Quer saber mais, aprofundar seus estudos e conhecer melhor o mundo da educação bilíngue, cadastre-se na nossa newsletter e nos acompanhe nas redes sociais, em breve, teremos mais conteúdo e novidades.


Débora Affonso, co-fundadora da Ampliando Horizontes Educacional


Livros de referência:

COYLE, Do, HOOD, Philip, MARSH, David. Content and Language Integrated Learning. Cambridge University Press, 2010

LYSTER, Roy. Learning and Teaching Languages Through Content: A counterbalanced approach. John Benjamins Publishing Company, 2007


Alguns vídeos usados como referência:

https://www.youtube.com/watch?v=Nlp4gUNzVqc

https://www.youtube.com/watch?v=-Czdg8-6mJA

https://www.youtube.com/watch?v=4wXRa_iVgqw&t=122s

https://www.youtube.com/watch?v=OL5Cqi35dZk

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