Nunca duvide da sua capacidade, professor, quando alguém que mal te conhece diz algo sobre sua prática. O primeiro passo não é desistir. Vem comigo que vou tentar te ajudar.
Algumas semanas atrás, vi alguns relatos de professoras que foram severamente criticadas por suas coordenadores e lembrei-me de um episódio no início da minha carreira. Eu já dava aulas de música há alguns anos, mas dentro do contexto bilíngue ainda era tudo novo para mim. Isso foi em 2006, ou seja, a circulação de informações e formações em educação bilíngue era praticamente nula. Mas, eu na minha inquietação por aprender, nunca parei de estudar.
Enfim… era por volta do fim de outubro e no meio de uma aula com os alunos de 4-5 anos, a nova coordenadora - que estava na escola desde setembro e nunca tinha conversado comigo ou perguntado sobre minhas aulas ou analisado meu planejamento - entrou na sala e começou a fazer uma reunião com a professora daquela turma. Continue a dar a aula com certa dificuldade pois elas falavam alto e os alunos começaram a se distrair. Terminei a aula seguindo o que estava planejado e fui para a próxima turma.
Na semana seguinte, a coordenadora me chama em sua sala e diz que não gostou da minha didática e que eu deveria mudar. Simples assim. Com essas palavras e sem nenhuma outra indicação, suporte ou direção. Saí da sala atônita e perdidaça. Pensei em não voltar e quis desistir. Mudei meu planejamento, coloquei novas estratégias em prática, mas a coordenadora nunca mais assistiu as minhas aulas. No final do ano recebi a carta de dispensa sem qualquer justificativa ou qualquer conversa.
Por um lado, achei bom, pois no ano seguinte eu precisava me dedicar ao último ano da faculdade, TCC e estágio. Terminei a faculdade, passei num concurso do Estado de São Paulo como professora de Artes do FI. Trabalhava numa escola do lado da minha casa. Melhor experiência para aprender o que é ser professor no Brasil. No final do ano, recebi uma proposta para voltar a trabalhar como professora de música em uma escola bilíngue. Mais um tanto de aprendizado…
E sempre na minha cabeça, aquela fala da coordenadora: não gosto da sua didática… Estudei muito, fui atrás de outros professores e consegui então, construir um currículo pensado para educação musical em contextos bilíngues e no meu Mestrado pesquisei a identidade cultural e como a música pode auxiliar no processo de consciência dos indivíduos bilíngues.
Ou seja, deixei uma crítica sem reflexão sempre ao meu lado me trazendo força para minha jornada, sem desistir, mas sempre com um gostinho amargo por não ter recebido, naquele momento, um suporte para essa evolução ter sido potencializada. Foi uma crítica esvaziada.
Alguns anos mais tarde, reencontrei a coordenadora em um congresso e ela, surpresa em me ver, veio conversar comigo. Começou me parabenizando pelo workshop que tinha apresentado com uma amiga professora fantástica, que por acaso trabalhava na escola em que ela era agora diretora. A seguir, trocamos mais algumas palavras sobre outras palestras do congresso e nos despedimos. saí daquela conversa flutuante.
Sim, meu ego foi inflado e todos nós gostamos disso. E isso me fez refletir sobre minha atuação como professora. Será que eu, em algum momento da minha prática, já tinha falado para algum aluno que o que tinha feito não estava bom mas não dei indicação nenhuma e como melhorar? Acredito que não, mas ficamos sempre com isso na cabeça. Como melhorar o feedback? Como avaliar de maneira coerente, sensata e construtiva? Como apontar o que foi bom e o que precisa ser melhorado? O que não faz sentido e o que tem potência?
Eu sei que minha história, pode parecer que tem pouca relação com a situação que apontei no início do texto, mas se você ler as entrelinhas, perceberá quão frequente são os comentários dos nossos gestores que nos desmotivam e nos fazem desistir. Eu sei que cada caso é um caso, mas quero que você, professor, não se sinta mal e desamparado. Peça ajuda, converse com outras pessoas e tente sim, outras estratégias como eu tentei.
Vou te dar uma estratégia que pode te ajudar com seus alunos e também em outros aspectos da vida. 2 stars and a wish, conhece? Ao fazer um assessment, seja em qualquer situação, aponte dois aspectos positivos e um que pode ser melhorado. Vamos testar?
Avalie este meu texto, pensando em 2 stars, duas pontos positivos, e 1 wish, algo que posso melhorar. Você vai perceber a potência desta estratégia, para todos os envolvidos.
Outro dia compartilho mais com vocês sobre como ouvir uma crítica e torná-la combustível para sua prática. E como eu faço isso nas minhas mentorias com professores ou futuros professores em contextos bilíngues. Até breve!
Ah! Não esquece do 2 stars and a wish, ok?
Beijinhos.
Star 1: Você escreve muito bem, adorei a forma como organizou as ideias, clara, leve, direta, relevante! Estou cansada de ler obviedades nos blogs e este texto me trouxe conteúdo!
ReplyDeleteStar 2: que bom ver que a crítica foi combustível para um crescimento profissional e pessoal tão grande. Para muitos a crítica é paralisadora.
Wish: Talvez seja algo geral mas precisamos aprender a ensinar as pessoas a como devem nos tratar. Sei que no ambiente hierárquico nem sempre é fácil mas acho que é um trabalho a ser feito: ensinar as pessoas a darem feedback e saberem quando ofendem ou são desrespeitosas. Talvez isso custe um emprego, mas acredito que as pessoas precisam saber quando elas falam (ou não falam) algo que seja tão significante!!!
You are brilliant!!!